
estava de azul. a mesinha não tinha mais os seus desenhos. nem seu trabalho, nem nada. estava sem jeito. pensava em não falar com mais ninguém. em abandonar aquela vida com pessoas específicas e vontades incoerentes. queria ir para são paulo. ou para a espanha. queria estar longe ou nem estar. viu as fotos sorrisos de alguns dias. também não era feliz ali. falava coisas erradas e respondia tudo ao contrário porque achava divertido. a diversão acabou. e a dúvida também. sabia que teria que se levantar, fazer um café, dirigir o carro. e fez isso. mas nada aconteceu. observava apenas a ausência de coisa alguma. eu o conheci assim, perdido no que não queria. presente no que não sabia. estávamos num parque, uma vez. as árvores balançando quase nunca, no mormaço tropical irritante. era ele também irritante. e eu. não queríamos sair do parque. nem achar o caminho de volta. então dormimos ali mesmo, entre folhas e bancos que ninguém visita. somos coisas e prantos que ninguém visita. somos instantes de escrita desperdiçada, numa ideia infantil de fugir, de fugir, de fugir. numa posição superior para todo o resto. numa posição altruísta para nós mesmos. fomos a uma praia, uma vez. e as ondas repetiam o mesmo canto o tempo todo. ir embora, estar aqui. ir embora, estar aqui. ir embora, estar aqui. o vento reverberava desejos contidos de distância. e permanecemos ali, sob o sol cortante de início de verão. sob a certeza constante de solidão. eu não sei me administrar. nem ele. nem juntos, nem sós. sóis. astros quentes gigantes que têm tudo ao redor de si. e tão sozinhos. e tão necessários. estava de vermelho. a bagunça típica e a falta de destino já parecia tão agradável. eu disse é hora de morrer, agora mesmo. e morremos.

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