
difícil perceber o evidente. eu costumava andar com fernando há muito tempo. jogar conversa fora mesmo. aqueles sonhos de início de faculdade, sede de começar a vida. fazíamos mil projetos nunca levados adiante. éramos tão outros. com amores confusos pelo inédito. a desilusão vai aumentando com a idade, mas ver fernando me levou ali de novo. e estar horas e horas com ele me fez querer passar mais horas e horas com ele. a música continua na minha cabeça. a pessoa certa sempre está ali sem ser notada. mas quando um percebe, será que o outro também o faz? como lidar com essa saudade que agora me torce? como evitar essa ânsia de falar sobre ele o tempo todo? e para tirar essa música da cabeça? quando ele vai me tirar as dúvidas? ele não vai. não tem coragem. manda abraços quando está longe. fica longe quando o abraço. fernando vai para shows e cinemas e esquece que ia comigo. pede companhia e a rejeita. e ainda não notou a semelhança. sabe que me perco em outras pessoas, em outros vícios. mas sabe que estou esperando. a nossa vida já não é mais começo. sinto falta de música com ele. e de sermos tão inteligentes em mundos diferentes. o problema é mesmo esse. fernando não se perde. segue reto por um caminho trilhado por tantas outras pessoas, enquanto eu sou incapaz de decidir qualquer caminho. ele é coisa pequena guardada para depois. e eu também. mas depois uma hora passa. e um dia seremos mais uma saudade de ilusão esquecida.

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