
tinha olhos verdes. e pele negra. descansava na parede, mas fazia isso como ninguém. parecia uma verdade coberta de fumaça e silêncio. a multidão não impedia sua paz. e eu queria mergulhar ali. nuns braços incertos de confusão e displicência. queria ser ali, uma nuvem, um minuto, um afago. a perna seguia a linha da parede, enquanto o pé levantava devagar ao som de uma música inexistente. inventada, talvez. simulada. tinha um rosto de solidão, necessidade. como o meu. e o de tantas outras pessoas, que conheço ou desconheço. todos ali parecem um pouco assim, esquecidos do valor do instante, do calor, das pessoas próximas. tinha a respiração de quem não queria estar ali e os olhos rodavam e rodavam e rodavam para o mesmo lugar o tempo todo.
___________ parte 3
- Arrogante, você é arrogante (eu disse)
- Não sou. Só não mereço estar aqui, de novo. Você, sim, é arrogante.
- Eu sei que sou. Eu prefiro desprezar o maciço, massivo, lascivo.
- Não é bonita, a sua arrogância. Ela é doentia, percebi de longe.
- Deixei ser assim, com a mente aprisionada na obsessão de me separar do meu próprio corpo.
- Então é só fuga. Então não tem graça, saia daqui.
- Poderia sair, mas você quer que eu fique. Sua falsa arrogância é apenas a necessidade de me ter aqui.
- Deve ser, mas prefiro tua ausência, distância. Prefiro um vazio entre nós, porque fico melhor assim.
- Não pode ser verdade.
- Mas é.
- Não, não é (insisti)
- Te ligaria todas as tardes e falaria de tantas coisas, do passado, do que já esqueci, do que vou viver, do mundo que ainda quero te mostrar. Eu ligaria e te veria, se isso me fizesse bem.
- Isso me faria bem. Tua atenção irritada. Essa preocupação em me fazer algo que nunca conseguirás.
- Teu ego é pura arrogância. Te faria bem, minha atenção. Pois me faz mal. Quando encosto numa parede dessas, lembro da música daquele dia. E sinto apenas desprezo pela tua perda de tempo.
- Minha perda de vida (observei)
- Sim, tua perda de vida.
- Eu te faria alguma coisa também, se pudesse. Se eu conseguisse apenas conversar com teus olhos, me perderia neles por pelo menos três dias.
- Posso fechá-los por você. Posso entregá-los a você, desfazê-los por você. E não o farei. Por ti nada mais persiste. Além da arrogância pela tua arrogância
- Me tire daqui (gritei)
- Vou te levar para a tua casa, se você prometer não sair mais de lá.
- Não posso fazer isso.
- Então o problema é seu. Tua vida é algo que merece ser escondido, porque fere as almas sensíveis. Machuca os olhares intranquilos. Manipula desejos arredios (ouvi)
- Me leve embora, na tua displicência, no teu encostar, nos teus olhos, nas palavras escritas, nesse diálogo inventado, me leve embora. Preciso estar com você, mesmo com a resposta evitada e tua vida atrasada, preciso estar na mesma parede, na mesma hora, no mesmo erro.
(...)
- Eu já te levei embora. De mim.
.
___________ parte 2
Teria algo a te dizer, quando vejo teu olhar perdido em mim assim. Teria algo a te dizer e a entregar e a repetir, quando sinto tua arrogância do outro lado da multidão, fingindo não querer estar aqui. Você vai se aproximar, eu sei. Vai me procurar, eu sinto. Lembrei de me prevenir, dessa vez. Lembrei de ensaiar o desprezo que mereces. Não, não chegue aqui, eu peço. Não venha para cá, imploro. Tua proximidade é espinho cortando a alma. É dança sem ritmo no meio desse pátio decadente. Seria outra coisa, se pudesse ser. Seria calma e fogo, paz e instabilidade, sorriso e frenesi. Eu te daria a minha palavra. Mas não existe mais palavra a ser dada. Nem importância. Prefiro a solidão, necessidade. Quero só estar longe porque já não te direi mais nada.

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