quarta-feira, 19 de outubro de 2011

a menina.


o corpinho tinha vivido poucas histórias. uma vez pediu à mãe que não dormisse, para que não ficasse sozinha mais uma vez. era sempre aterrorizada pelas sombras do quarto, ou pelos ruídos na sala. mãe não queria saber. e ficava sozinha, porque era incapaz de dormir. acostumou-se com o medo, três anos depois de ter aprendido a falar. gostava do dia e de quando o sol tocava seus cabelos fogo cacheados. as sardas do seu rosto dançavam em raios ultravioleta. agora não tinha uma vida tão ruim assim, recém chegada à terceira série, esperava a hora de ser como aquelas outras menininhas, que têm algo a mais no corpo, no sorriso, nos gestos. enquanto isso apenas corria e brincava de perseguir os meninos no pátio. mãe não ia buscá-la no colégio. e ela voltava sozinha para mais tarde não dormir e ficar outra vez sozinha. pai é longe, não pode consolar. não pode ficar acordado com ela, nem levá-la para um sorvete. então deitava ao lado da mãe e com o passar das horas perguntava, de coração partido – dormiu foi? – e não tinha resposta. as sombras e o frio aumentavam justamente nesse instante. ela resolveu pensar nos desenhos que assistiu naquele dia, ou nas músicas que não escutou, nos amigos que poderia ter. quando levantou sentiu que o mundo era mais doce, mesmo que de doce ninguém possa viver. no caminho para a escola, finalmente dormiu.
o corpinho tinha vivido poucas histórias. pareceu muito bonito no meio da sala, com as flores que a cobriam. os cabelos fogo cacheados contrastavam com o preto ao seu redor. as sardas dançavam ainda, empalidecidas ao som de murmúrios e lamentos. o corpinho tinha vivido poucas histórias. mãe agora não consegue mais dormir.

0 comentários:

Postar um comentário