segunda-feira, 17 de outubro de 2011

do que amanhece.


Não tinha medo do fogo, ou do claro, ou do atraso. Vivia impregnado da vontade de viver outro tempo, outra hora, outro número. Não tinha vontade de pedir, nem de estar, nem de sentir. Precisava só das horas vagas e nelas sonhava com um prazer ausente e impossível. Eduardo não sabia onde estava. Nunca entendeu porque nasceu nessa cidade ou perto dos parentes que tem. Também não entendia como era possível que o mundo providenciasse sempre uma configuração diferente de pessoas nas mesas dos restaurantes que frequentava. Ou das casas de dança, ou das salas de cinema, ou dos bares decadentes. Nunca seriam as mesmas pessoas. E algo indicava que devia existir um motivo para que todas elas estivessem ali, na mesma hora que ele. Eduardo sentia o gosto da falta de sono o tempo todo. Ou de motivos, ou de uma necessidade qualquer. Nada pertencia a Eduardo, além da sua fama de corrupto, imoral, indecente. Ele e sua mania de valorizar apenas o inconstante. Via os abismos como uma coisa passível de vencer, mas ainda assim recuava na última hora. Via o trabalho como algo fácil de fazer, e ainda assim preferia fingir que isso não existia. Via o amor como uma coisa bonita, mas era algo facilmente desprezível também. Eduardo não foi embora nem voltou. Ele ficou em sua casa casca fechada escudo vazio. O ambiente conhecido traz um conforto maior, mesmo sem impedir a nostalgia constante. Eduardo é melancolia, preso atrás de sua janela e computador. Considera repugnante o que não é próprio dele. Angustiante o que é diferente. Delirante o oposto. É deslocado desse mundo e de outros imagináveis. Capaz de tecer pensamentos sobre si próprio, sobre si próprio, e si próprio somente. É a deslealdade evidente.
Eduardo tem 15 anos. Mas pensa que vai fazer 48.

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